21 de maio de 2013

Eu quero, eu posso! Só não me peça para pagar a conta...

A educação está em coma. Prefiro acreditar que ainda há chance do quadro se reverter, já que existem raros casos de coma que duram anos a fio e culminam na volta do paciente à vida. Os educadores (pais incluídos) deseducados criam e alimentam pequenos monstros cheios de soberba e nenhum senso de responsabilidade. O lema é: eu quero, eu posso! Porém, se algo der errado, a culpa não é minha.

Lembro-me sempre do meu pai dizendo: "no meu tempo, criança não ouvia conversa de adulto. No meu tempo, criança não emitia opinião. No meu tempo, bastava um olhar dos pais para que a criança soubesse seu lugar." Tudo funcionava muito bem, até que alguém resolveu que a criança era um ser humano com vontade própria e que deveria ter seus desejos ouvidos e analisados. Até aí, uma tentativa admirável e bem intencionada de equilíbrio. Acontece que já atingimos o vértice da parábola  e a tendência agora é de queda livre com pouca ou nenhuma resistência do ar.

As crianças já chegam ao mundo impondo suas regras. "Mudem tudo de lugar porque eu não gosto dessa decoração!" E lá vai o mundo se reorganizar para satisfazer os caprichos dos infantes. Começa em casa. Aliás, começa e termina em casa, mas não é diferente na sala de aula. No meu tempo de escola, na tal fase da transição, quando já haviam abolido a palmatória mas ainda havia alguma noção de disciplina e hierarquia, só passava de ano quem aprendesse a matéria e tivesse bom comportamento. O professor tinha autonomia para fazer argüições sem aviso prévio; havia, no máximo, dois ou três alunos indisciplinados por turma; e os alunos morriam de vergonha ao tirar uma nota baixa. Hoje, alunos educados são exceção; ter vergonha na cara é super careta; e o professor não pode, de forma alguma, aplicar um teste surpresa. Ao invés disso, ele deve elaborar as provas de modo que a distribuição dos pontos beneficie sempre aqueles que não sabem tanto assim. Afinal de contas, se eles não sabem, a culpa é do professor que os persegue ou não explica direito; a culpa é da escola sem estrutura, do sistema capitalista opressor, do Papa retrógrado, mas nunca, nunca deles.

Recentemente, uma aluna me me chamou de vadia nas redes sociais da internet porque eu tinha dado nota zero a um trabalho que ela não fez. Ora, se a infanta conhecesse só um pouco do vernáculo, saberia que ela atribui a mim uma qualidade que, pelo menos no caso em questão, pertence a ela. Tudo bem, eu sei que seria exigir demais de uma garota de quinze anos. Contudo, esse exemplo ilustra bem a mentalidade contemporânea: total direito à escolha, à liberdade + isenção diretamente proporcional de responsabilidade. Esta menina é mais uma cria desse binômio perigoso, para não dizer letal.

Precisamos de números! Quadruplicamos o número de alfabetizados! Nossa, como vocês são bons em matemática! Que beleza de país! Eu ri da Regina Duarte, mas quem está com medo agora sou eu.
O mais triste é que além do governo, pais e escolas também querem números. Números e elogios, por favor! "Quem você pensa que é para fazer uma crítica ao meu filho se eu mesmo não faço?" "Ele não aprende porque tem problemas na família, coitadinho, os pais se separaram há 3 anos." "Ele tem laudo. Trata-se de uma doença psicológica que não o deixa prestar atenção às aulas, faz com que ele converse o tempo todo e responda à professora, além de tirar notas muito baixas." " Tem como você fazer alguma coisa para ajudá-la?" Ou seja, os próprios pais almejam a mediocridade cultural e intelectual dos filhos. Pode existir uma situação mais infeliz para a educação? A questão é ainda mais grave porque esses pensamentos ultrapassam os limites das escolas e das residências e é disseminado por todos os campos e cantos da sociedade. A ordem é nivelar por baixo. Para isso, seguimos mudando conceitos e valores. Já viramos répteis. 

Os jovens se tornaram tiranos inconsequentes de cabeça oca, doutrinados a satisfazer seus desejos a qualquer custo, apoiando-se na garantia de que a conta nunca será paga por eles. Pensando bem, como culpá-los?


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