24 de setembro de 2010

Elogio à beleza

Desde pequena, sou uma admiradora da beleza. Quando via algo feio, ruim, avariado, chorava muito e queria sair do lugar de qualquer jeito. Era uma espécie de aversão à feiura. Aos poucos, obviamente, fui me acostumando a aceitar o mundo e a enfrentá-lo ao invés de fugir, mas a minha admiração pela beleza sempre esteve presente.


Adoro ver as belezas naturais de um lugar: o mar, os rios, as árvores, as montanhas, as flores (adoro flores). Sei admirar também as coisas belas feitas pelo homem: a arquitetura, cidades planejadas, arborizadas, praças, roupas, acessórios... Admiro também pessoas bonitas. Ah! Como é bom chegar num lugar onde tenha uma concentração grande de gente bonita! Como o conceito de beleza é muito subjetivo, vou dizer exatamente o que é "gente bonita" para mim: além das pessoas privilegiadas pela genética, que são poucas, gente bonita para mim também é gente bem cuidada, gente que passa um ar de tranquilidade, gente educada, limpa, discreta, fina, feliz, saudável, honesta, correta.

Pois bem, quando comecei a estudar na Universidade Federal, não podia compartilhar com ninguém esse sentimento, pois lá havia um movimento contrário a tudo o que eu acreditava. Era uma espécie de elogio à feiura e à pobreza. Eu, apesar de nunca ter tido dinheiro, nunca tive vocação para carmelita descalça. Na universidade, o legal era usar roupas estilo mendigo, pasta jogada para as costas, barba grande (estilo Los Hermanos), além de repetir exaustivamente que tudo o que era de bom gosto era coisa de mauricinho e patricinha e não fazia parte da nossa realidade. Ai como eu odiava ouvir isso. O pior é que a pessoa que não se entregasse ao desleixo era considerada burra. A pessoa que lesse Veja era burra. Quem não fosse ateu era burro. A pessoa que gostasse da única música de Los Hermanos que presta (Ana Júlia) era burra. A pessoa que não gostasse de tudo que fosse alternativo era burra. Quem não exaltasse a áfrica e rebaixasse a europa e os EUA era burro e preconceituoso. O MST acampava no campus e assaltava as pessoas e, mesmo assim, tínhamos que defendê-los, senão, éramos burros, vazios, superficiais. Quem não enxergasse o bandido como vítima era burro. E eu, que sempre admirei a beleza, acho que era uma espécie de ícone dos burros. Felizmente, a minha formatura foi uma beleza! Eu e outras "burras" lutamos contra esse pensamento idiota e conseguimos fazer algo que estava totalmente "fora" da nossa realidade. Ótimo. Se minha realidade é a pobreza (de dinheiro ou de espírito), quero mesmo é buscar uma realidade diferente. Sinceramente, não entendo o mal que há nisso.

A nossa vida é o bem mais precioso que temos. Sem o corpo, não há vida. Cuidar do corpo significa que nos preocupamos e zelamos por esse bem. Gostar de si não é errado, pelo contrário, é uma obrigação! Vestir-se bem para ir a um evento demonstra a importância que damos a ele. Vestir-se bem para ficar em casa demonstra a importância que damos à nossa própria companhia. Cuidar da saúde física e mental é prova de amor próprio. Procurar ser uma pessoa honrada é mais que uma prova de amor próprio, é prova de amor ao próximo. Ter moral não é ser otário ou burro. Burra é essa prisão. Burro é você deixar de comprar uma roupa porque é daquela marca, assim como é burro você só comprar por isso. Burro é você não ler o que tem vontade só porque disseram que gente inteligente não lê aquilo. Burro é você ser escravo do luxo ou do lixo. Burro é você fazer o que é errado só porque todo mundo faz. Burro é você se privar de outro bem precioso: a liberdade. Liberdade de falar o que pensa, de raciocinar, de ir para onde quiser, de querer mudar e lutar por isso, liberdade para buscar a beleza, para tornar-se belo.

Hoje, vejo que aquela ideologia da universidade está tomando maiores proporções.

O natural é belo. A feiura é exceção. Não podemos deixar que ela se torne regra.

6 comentários:

  1. a minha impressão é que esse tipo de pensamento prevalece na dita "área das humanas" , especialmente nos cursos de letras, história, filosofia e ciências sociais, que normalmente são vizinhos de porta nas universidades. a combinação jeans rasgado - camisa xadrez - papete com meia - barba comprida - cabelo desgrenhado (e toda a filosofia, muito bem descrita por ti, que acompanha essa combinação) tem sido uma constante na minha vida há dez anos. e eu também sou um ícone da burrice nesses ambientes...

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  2. Ameiiiii o texto! Se estudadasse lá seria a "burrona master" pq adoro tudo o que é belo!

    Me arrumo sim,leio o que quero e apoio causas que eu acredito...e quem me achar burra por isso não merece nem meu desprezo!

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  3. Obrigada pelo selinho,estou ausente do blog por uns dias por falta de tempo e pq o meu pc está dodói!!!

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  4. Estranho, como alguém em cima comentou, deve ser nas áreas de humanas, pois na universidade federal que eu estudei só tinha filhinhos de papai, garotos e garotas da zona sul e etc... mesmo assim, prevalece a ideologia esquerdista. Dos professores que eu tive (foram mais de 10), apenas um não era de esquerda. Mas realmente, em cursos do tipo Filosofia e História a maioria são aqueles caras barbudos, alternativos e tal. Não concordei com o Los Hermanos, pois eles têm várias músicas boas, e não apenas Ana Júlia! heheheh

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  5. Pois é, também não concordei com a parte do Los hermanos... eu gostava moderadamente da banda, que tinha outras músicas boas. E "Ana Júlia" me traz várias lembranças bonitinhas. Tem que ser muito chato e ranzinza para não gostar dessa música...

    Fora isso, você tá certa. Uma professora que eu tive, Mirella Márcia, falou que "a beleza é um traço que organiza a civilização". Por essa razão, somos naturalmente inclinados a persegui-la. Acreditamos, na verdade, na sensação de que o caos do universo faz algum sentido e é harmonioso de alguma maneira, já que coisas tão belas existem. Foi então que percebi o quanto somos quimicamente dependentes da beleza em todas as suas formas: artísticas, naturais, imaginárias, híbridas, esquisitas. Acredito que vemos beleza até em algumas coisas ditas feias, desgrenhadas e sem simetria, por conta dessa necessidade. E o que torna a beleza ainda mais maravilhosa é seu caráter móvel: o belo não depende somente do que as coisas são, mas do que somos e de onde estamos.

    Nem preciso dizer o quanto seu blog é bonito, é bonito e é bonito. :)

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  6. Bom texto garota!! Todos nós perseguimos o belo de uma forma ou de outra, será que somos todos burros? Seu blog é belíssimo!
    Beijinhos

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