8 de julho de 2010

Passeios II: Museu da Língua Portuguesa - MENAS



Deixei para falar sobre a visita ao Museu da LP num post separado porque eu simplesmente adoro o Museu. É um museu totalmente diferente, não tem cara de museu, não que eu tenha algo contra os tradicionais, mas, nada como uma boa novidade, não é? Lembro-me da primeira vez que estive lá. Fiquei fascinada. Não me esqueço de um garotinho que se sentou ao meu lado, logo após a exibição do filme, na hora do áudio com projeção de imagens. Ele estava com a mãe e o irmãzinho e aparentava ter uns 8 anos. Via-se que era uma família pobre de dinheiro, mas com muita sensibilidade. Primeiro da mãe, que aproveitou as férias escolares para levar os filhos ao museu, depois, do garoto, que se emocionou com o que viu, a ponto de chorar. E eu, que sou uma manteiga derretida, me emocionei com a emoção dele e até hoje choro quando me lembro da cena. Lembro-me da mãe perguntando: está gostando, filho? E ele, visivelmente emocionado, fez que sim com a cabecinha, enquanto uma lágrima escorria pelo seu rosto (e enquanto várias escorriam pelo meu).

Para quem não conhece, o museu é dividido em três partes: o 1º andar, onde ficam as exposições temporárias, o 2º andar, com a exposição permanente e o 3ºandar, com o auditório onde acontece a projeção de um filme de 10 minutos sobre as origens da Língua Portuguesa falada no Brasil. Dessa vez, só pude visitar a exposição temporária mesmo.

No quesito beleza e inovação, a exposição não deixou a desejar, mas ainda estou em dúvida quanto à informação. Pensei, pensei e não consegui decidir se tem informação demais ou de menos.

Já não me lembro de muita coisa que estudei na faculdade, mas lembro-me que Linguística era uma disciplina amada por (quase) todos. Era uma forma interessante e totalmente nova de ver a língua. Aprendemos a esquecer os preconceitos e a enxergar a beleza dos diversos falares. Mas aprendemos também que é essencial dominar a norma culta e que não é da alçada do linguista atribuir à língua juízo de valor.

Com exceção de um quadro contendo os erros mais comuns cometidos pelos falantes, todas as outras instalações da exposição MENAS tiveram o objetivo de incutir na cabeça das pessoas que não existe erro. Uma das instalações traz um jogo, onde o visitante deve escolher uma resposta correta para diversas questões. O detalhe é que todas as respostas estão corretas, ou seja, o jogo se torna chato e sem sentido.


Logo na entrada, uma instalação com jogos de espelhos que formam sentenças trazem alguns conceitos interessantes. Eis alguns:


- O erro de hoje pode ser o acerto de amanhã. (Sim. Está mais do que provado. Além do mais, a sentença admite a existência do erro.)


- Se alguém usou uma palavra, ela existe. (Existe. Mas não quer dizer que esteja correta.)


- Todos têm sotaque, ainda bem. (Eu, particularmente, detesto sotaque kkkkk.)


- As gramáticas têm mais dúvidas que certezas. (Achei que o tom exagerado foi para dar mais credibilidade à frase.)


- Saber falar e escrever é fazer-se compreender. (Foi a que eu mais gostei. Acho que a forma mais fácil de se fazer entender é usar a norma culta. Não estou falando de linguagem arcaica e vocabulário rebuscado. Falo de linguagem simples, porém, culta.)


- Não existem erros absolutos na língua. (Discordo.)


- Língua é uso. (Sim...)


- A língua varia no tempo e no espaço. (Fato.)


- As crianças dão à língua a lógica que ela tem. (Não sei se captei a mensagem mas, se é o que estou pensando, faz sentido.)


- Quero ser um poliglota na minha própria língua. (Sim, mas, se tiver que escolher uma variante, que seja a culta. Todos vão entender você.)


O texto de apresentação determina a visão que o visitante deve ter: “Numa sociedade plural e democrática, sempre haverá, de um lado, quem considere que a correção linguística é absoluta e, de outro, aqueles que adotam uma postura de relativismo completo, afastando-se desse tipo de discussão. Entre concordar com cavalheiros cheios de certeza ou com os que acham uma perda de tempo preocupar-se com o “certo” e o “errado”, MENAS tomou outra direção: decidimos expor os visitantes a um conjunto das mais diversas situações linguísticas, convidando-os a tirar suas próprias conclusões.” Estou cheia de certeza de que a expressão “cavalheiros cheios de certeza” não é um elogio. Obviamente, “os que acham uma perda de tempo preocupar-se com o certo e o errado” são mais legais. Tenho certeza de que um adolescente típico não vai pensar duas vezes em qual caminho seguir. Achei esse texto irresponsável. Pronto, falei. Não se pode dar esse tipo de informação dessa forma. É como descrever o ato sexual a uma criança que pergunta aos pais de onde ela veio. Ela não vai entender, e pode fazer muita besteira com a informação (kkkkkk pausa para rir do meu exemplo).


Acho que a exposição deveria ter feito uma explanação sobre a ciência da Linguística, apresentando, inclusive, as atribuições do linguista, para que os visitantes soubessem a diferença entre analisar e normatizar. Deveriam ter mostrado a importância de dominar a língua culta. Deveriam ter apresentado a norma culta de modo menos PRECONCEITUOSO.


E, para mostrar que o que eu digo faz sentido, vejam o comentário sobre a exposição feito por uma estudante(???) de Letras:

1. gessyca Disse:
abril 7th, 2010 at 10:54


eu sou estudante de letras da UFCG e acho muito importante essa discurssao da lingua portuguesa, por que nem tudo que se diz correto, esta realmente correto! tambem é um grande passo para combater a norma curta, aquela que é a miseria da gramatica (faraco)!!!

Até agora não entendi direito o que ela quis dizer, mas é triste saber que trata-se de uma estudante de Letras. Sem mais...




P.S.: "menas" é UÓ!

9 comentários:

  1. Oi!!! Eu adoro museus todos eles, adoro exposições, artes e tudo que está relacionado ao assunto.Porém, o museu da Língua Portuguesa deixou a desejar, eu esperava mais (bem mais). E fica a dica quem mora em São Paulo faça uma visita e tire suas próprias conclusões!!! Beijos.

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  2. Parabéns pelo texto! Belo incentivo à cultura, essa é minha garota!!! (apesar de ter puxado o dom do pai, e a cara também, kkkkkkkk, é verdade...eu ralo e ele se regala).
    Beijos

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  3. Rafa, lá no comentário da garota, a norma curta, a que ela se refere, foi uma expressão usada por Faraco no Norma Culta Brasileira - desatando alguns nós, ao se referir à norma culta.
    Tamb´m acho perigoso expor informações sem maiores discussões, mas o meu tempo em sala de aula, formando educadores, mefez perceber a necessidade de valorização da norma popualas, mas sempre lembrando da necessidade de ensino da norma culta. O que se deve pensar é como se ensinar, pois da forma como se tem feito ultimamente, não tem funcionado muito, não acha?

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  4. heheehe obrigada pela explicação. Lembrava vagamente te já ter ouvido essa expressão, mas garota escreve muito mal p/ quem estuda Letras. Como dizem os paulistas: NOSSA! kkkk Concordo que não tem funcionado, mas acho q o ENSINO não tem funcionado de modo geral, não apenas o ensino da LP.
    P.S.: se soubesse fazer selos, faria um p/ vc, com o título: EU SOU UMA COMENTADORA ASSÍDUA heeheheeheh

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  5. Você já está participando da campanha "Libertem V."! Muito bom!
    Todas as pessoas de bem do planeta estão orgulhosas pela sua colaboração!

    Avancemos contra a opressão!

    rs

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  6. Rafaiela, no outro dia conversava (ou discutia) com um amigo justamente sobre a língua portuguesa. Na minha opinião (humilllllllldeeeeeeeeeeeee) ela é pouco democrática e avessa a evoluções. "As crianças dão à língua a lógica que ela tem". Mesmo sem ter visto essa exposição, essa foi uma das conclusões minhas que expus a esse amigo meu. É tão simples quanto maravilhoso: pra ingenuidade lógica das crianças casa é com Z mesmo, Homem é omem e muito é muiNto. Palmas pra essa inteligência standard, esse software que já vem de fábrica e que posteriormente é corrompido em nome de uma língua que nasceu há séculos e traz nas costas os bordados e as anáguas daquele tempo. Ficaria feliz, e os linguistas de plantão me matarão, que um dia alguém muito importante no mundo da língua portuguesa se levantasse e dissesse diante das câmeras: "Ei, minha gente, é hora de democratizar a nossa língua. É hora de apará-la, lavá-la, enxugá-la, dar-lhe novo acabamento, mais cromado, mais leve. É hora de torná-la mas acessível não apenas a quem é filho dela mas a quem a quer aprender como segunda linguagem. Vamos transformar HOMENAGEM na desempoeirada OMENAGEM, o CHUCHU será mais acessível se for XUXU, assim como XUXA é XUXA mesmo. E que tal um CAZACO com Z, já que som de Z é Z e não S? Poderemos também viver felizes abraçados a um ABRASO, já que som de S é S e não Z. Além disso economizaríamos toneladas de tinta anualmente não tendo que colocar cedilhas abaixo do C e nem para duplicar a letra S. Pra quê Ç e SS? O que eles fazem realmente entre nós? Nos dizem que FORÇA e SUCESSO são coisas que alcançamos apenas se não escrevermos FORSA e SUCESO? E se escrevermos SUSESO, dispensando o sobrecarregado de multifunções C e deixando-o apenas para sua tarefa mais lógica que é ser um C mesmo? C de quê? De Casa, de carro, de cachoeira (que ficaria linda como caxoeira), de colher. E CIMENTO? Ah, lá vem o acúmulo de funções pra o pobre C. Deixem CIMENTO com S mesmo, SIMENTO, já que SIM é com S e não com C... que feio CIM. Se SIM então SIMENTO. E o H? Pra que serve esse ser mesmo? Pra iniciar palavras que teriam o mesmo som caso ele não estivesse lá? HOMEM, HORA, HIPOPÓTAMO se diriam de forma diferente sem o H? Não. Ah, então ele serve pra se juntar ao C e fazer o mesmo som que o X faria tão dignamente! Um CHATO seria mais chato que um XATO? Não, acho que não. E AXAR algo sobre alguma coisa seria menos importante que ACHAR algo? E cantar um INO, seria certamente menos patriótico que cantar um HINO, não é? Não, acho mesmo que não. Mas seria certamente mais fácil de entender e aprender.
    Tudo isso é radical de mais, eu sei. Mas é lógico e muiNto (Oops! MUITO) mais natural.
    Massacrem-me agora, aceitarei com humildade, mas não perderei o encanto pela idéia de que a nossa língua ainda pode, um dia, mandar às favas todos esses bordados já meio amarelados que ela insiste em exibir por ai.

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  7. Zazo,
    Seus comentários são maiores q meus posts hahahahaha...
    Quando estudamos Linguística na faculdade, a primeira coisa que aprendemos é que não devemos ter preconceito linguístico. Os linguistas consideram todos os falares válidos e seu objetivo é estudá-los, analisá-los e não normatizá-los (impôr regras) ou dizer que é certo ou errado. A língua portuguesa não é tão engessada assim. Já mudou muito desde que surgiu até hoje, tanto que, se vc pegar um texto em português arcaico, vc não entende nada. Há mudanças ocorrendo nos dias de hoje tmb. Vc sabia q, há poucos anos, as palavras "hilário" e "compromissar" não existiam? De tanto o povo usar, foram introduzidas no dicionário. A reforma ortográfica tmb mudou algumas coisas, um exemplo é o trema, q se foi, já q quase ninguém o usava. Hoje, a linguagem da internet já usa x no lugar de ch entre outras coisas. Quem sabe um dia as mudanças q vc tanto quer não vão acontecer? Só não acho esse tipo de mudança democrático, pq o certo passa a ser errado e o errado passa a ser certo. O problema só mudaria de lugar, afinal de contas, cada um vê as coisas sob sa ótica. Eu, por exemplo,jamais leria SUSESO como sucesso, eu leria SUZEZO (kkkkkkk). É por isso q tem q existir uma língua padrão (ou, língua culta), p/ q todos possam se entender, já q o principal objetivo da língua é a comunicação. Quem domina a língua padrão, se comunica bem com todo mundo. Mas isso não quer dizer q devemos menosprezar as inúmeras variações da língua. Pois bem, a partir desse pensamento de valorizar as línguas "alternativas", acabamos por desvalorizar a língua padrão e é isso q eu não acho certo. É mais ou menos o q acontece com a cultura no Brasil. No passado, a cultura negra era considerada de menos valor. Iniciou-se um processo de valorização tão grande dessa cultura, q hoje ela é considerada superior. Hoje, principalmente em Salvador, existe uma negação da cultura européia, q era a de mais prestígio no passado. Por essa razão achei a exposição preconceituosa. E, sinceramente, acho q o povo já escreve mal demais (e quando falo povo, são pessoas q tiveram acesso a educação) p/ receber esse "incentivo". Acho q escrever bem é ter preocupação e respeito com o leitor. O povo hoje não tá nem aí.
    Sobre as mudanças q vc citou, acho q o caso do X/CH e do H são bem possíveis. Quem sabe? E pode deixar q ninguém vai te massacrar (rsrs) pois suas ideias têm lógica e, principalmente, mesmo com toda a sua "revolta", vc escreve BEM kkkkkkk.

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  8. Por favor, quanto tempo se gasta numa visita razoavelmente completa pelo Museu?

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  9. Anônimo,

    Acredito q entre 2h e meia e 3h dá p/ fazer uma visita razoavelmente completa. Mas dá p/ ficar mais tempo, se vc quiser algo mais minucioso. Vale apena!

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